
Quando meu irmão mais velho regressou de Angola em 21 de Agosto de 1969, eu e restante família fomos lá chegada dele, porque quando foi, fez tal e qual como eu, foi sem dizer nada a ninguém, ele foi e veio no Paquete Vera Cruz.
Paquetes Vera Cruz e Santa Maria Video
Na chegada no cais da Rocha de Conde de Óbidos em Lisboa, eu fiquei deslumbrado com com o que via pois nunca tinha visto um navio na minha frente, e pensei para comigo eu tenho que trabalhar numa coisa destas, trabalhar, porque outra coisa como era lógico estava fora de questão, e a primeira coisa que fiz no dia seguinte foi informar me o que tinha que fazer para isso.
Com muita luta, muita força de vontade e dinheiro envolvido lá fui conseguindo a papelada necessária, lembro me que a Capitania ainda era junta à Praça do Comercio em Lisboa o individuo que nos atendia era um senhor chamado de Cunha, o nome parecia já dizer tudo, era assim quando chegava a vez de ser atendido a primeira coisa que ele fazia era estender a mão e se a nossa levasse alguma coisa os papeis eram postos no cimo do monte, se a nossa mão não levasse nada aquilo ia logo para o fundo da montanha.
Eu como já trabalhava e na altura já ganhava razoavelmente bem, já tinha um dinheirinho, sabendo da coisa, porque já estava bem informado e decidido como estava a tudo fazer para ir para a marinha mercante, sempre levava o volume maior e ainda não passava um ano a 31 Março de 1970 lá estava eu a trabalhar no melhor navio português de sempre, o “Paquete Infante Dom Henrique”.

Numa viagem de 38 dias, que era de escala Lisboa, Madeira, Las Palmas, Luanda, Lobito, Cap Town, Durban, Lourenço Marques, Beira e o respectivo regresso pelos mesmos portos.
Ainda não tinha feito 18 aninhos, a vida era dura, embarquei como ajudante de copa, trabalhava das 6 da manhã ás 11 da noite, para alem de outras coisas, passavam me pelas mãos 5 mil pratos por dia, metido numa chafurdice tremenda, passando a maior parte do dia encharcado em agua, e restos de comida etc.
Os pés incharam me pareciam dois pandeiros e cheguei a chorar o porquê de tanto dinheiro gasto e tanto sacrifício para andar ali metido naquilo, mas na verdade nunca dei parte de fraco e aguentei a viagem inteira.
Na estadia em Lisboa que era sempre entre uma ou duas semanas, fiquei sempre á espera que me dissessem que não ia continuar pelo facto do que me tinha acontecido, como nuca ninguém me disse nada, também eu segui a minha vida com nada tivesse acontecido e quando já estava tudo preparado para a próxima viagem sou chamado no comissariado, então pensei pronto é agora, mas para minha grande surpresa, diz me o comissário, um senhor chamado “António Capitão, Capitão de apelido”, que depois se tornou um grande amigo meu, sei o que se passou contigo, mas mostraste força de vontade o que te aconteceu não foi culpa tua por isso vais mudar de trabalho e vens para aqui para o escritório, bem trabalhar no escritório não queria dizer que fosse escriturário, ia fazer o que lá chamavam de grumo, mas mesmo assim para mim, foi o céu que veio á terra.
O que eu fazia como grumo, ordens dadas pelo senhor comissário António Capitão, então quando chegava de manhã já levava o pequeno-almoço para ele, depois ia à telegrafia buscar as noticias, passava uma grande parte da manhã a fazer copias e depois distribui-las pelas cabines de luxo e 1ª classe, os bares e cabines dos oficiais, na parte da tarde fazia mesmo alguns trabalhitos simples de escritório e levava telegramas nas cabines dos destinatários, á noite fazia a limpeza no escritório e mais tarde ajudada nos jogos de bingo nos bares.
E assim foi até desembarcar para ir á inspecção, 15 de Fevereiro 1973, que já tinha sido adiada porque andava em viagem quando fui chamado a 1ª vez.

139º Dia de Viagem- 19 de Maio- Domingo- A Navegar.
138º Dia de Viagem- 18 de Maio- Sábado- ( Mogadishu) Somália
137º Dia de Viagem- 17 de Maio- Sexta-feira- ( Mombassa ) Kénia
136º Dia de Viagem- 16 de Maio- Quinta-feira- ( Zanzibar) - Tanzania
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